Como tratar feridas com exsudato em hospitais?

Profissional de saude realizando curativo com atadura no joelho de paciente para tratamento de feridas com exsudato

Feridas com exsudato são grandes desafios no ambiente hospitalar. Quando produzida em excesso, o manejo torna-se ainda mais complexo para as equipes multidisciplinares. 

Sabe-se bem que esse fluido é um dos principais aspectos a serem avaliados e, quando mal gerenciado, pode comprometer seriamente o processo de reparação tecidual.

Neste guia, você vai ver condutas e inovações baseadas em evidências para o tratamento eficaz de feridas exsudativas, garantindo um ambiente ideal para a cicatrização. 

Os perigos invisíveis do biofilme

Em feridas crônicas, aquelas que não apresentam progresso após duas semanas, o biofilme está presente em cerca de 78% dos casos e tem um papel decisivo na dificuldade de cicatrização. 

Sua grande ameaça está em como se forma e amadurece muito rápido, em apenas 48 a 72 horas, criando uma barreira de microrganismos que impede a ação adequada de antimicrobianos e do sistema imune. 

Como não pode ser identificado a olho nu, esse inimigo “invisível” muitas vezes passa despercebido, mantendo a ferida em inflamação persistente e atrasando de forma importante o processo de reparação tecidual.

Como o conceito TIME orienta a avaliação antes do tratamento de feridas com exsudato


De acordo com o material “Condutas e inovações nos cuidados com feridas crônicas” do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), o conceito TIME é uma das principais ferramentas para organizar o raciocínio clínico no cuidado com lesões.

A ideia é simples: em vez de olhar a ferida de forma solta, o profissional avalia sempre esses quatro pilares. Assim, fica mais fácil identificar o que está atrasando a cicatrização e definir a melhor conduta para cada etapa. 

Quanto mais ajustados estiverem esses quatro elementos, maiores as chances de o processo cicatricial evoluir de forma adequada. A seguir, um resumo de cada componente do TIME:

T – Tissue (Tecido inviável)

O “T” diz respeito ao tipo e à qualidade do tecido que está no leito da ferida.

  • Quando há tecido inviável, necrótico ou muito comprometido, o desbridamento é fundamental.
  • Esse desbridamento pode ser mecânico, enzimático, autolítico, biológico ou cirúrgico, sempre com o objetivo de remover o tecido desvitalizado e restaurar uma base saudável para a cicatrização.
  • Tecidos mortos favorecem a proliferação de bactérias patogênicas e dificultam a formação de tecido de granulação. Ao removê-los, melhora-se o ambiente para a reparação tecidual.

I – Infection/Inflammation (Infecção ou inflamação)

Aqui, o foco é a carga microbiana e a resposta inflamatória da ferida.

  • Feridas com alta contagem de bactérias ou inflamação prolongada tendem a apresentar excesso de citocinas inflamatórias, atividade aumentada de proteases e redução de fatores de crescimento, o que atrapalha a cicatrização.
  • Nesses casos, é essencial limpar adequadamente a ferida, avaliar o aspecto clínico e, se necessário, lançar mão de anti-inflamatórios e antimicrobianos.
  • Em feridas de difícil cicatrização, considera-se muitas vezes a presença de biofilme, sendo indicada uma estratégia precoce antibiofilme, com higienização rigorosa e uso de coberturas apropriadas.

M – Moisture (Desequilíbrio de umidade)

O “M” trata diretamente do equilíbrio da umidade e do controle do exsudato.

  • A cicatrização é favorecida em um ambiente úmido na medida certa. Quando o leito está ressecado, a migração das células epiteliais fica lenta e o processo cicatricial é prejudicado.
  • Por outro lado, excesso de exsudato também é um problema: pode causar maceração da borda e da pele ao redor da ferida, aumentando o risco de lesões e infecções.
  • Por isso, é importante escolher curativos que mantenham a lesão continuamente úmida, mas com pele perilesional seca, protegida.
  • Em casos de grande volume de exsudato, podem ser necessárias técnicas como terapia por pressão negativa ou métodos de compressão, sempre com curativos capazes de absorver o excesso de fluido sem ressecar o leito.

E – Edge (Borda da ferida)

O “E” avalia como as bordas da ferida estão evoluindo.

  • Quando a borda não avança, há sinal de estagnação da cicatrização. Isso pode estar ligado à falta de migração de queratinócitos, à resposta inadequada das células da ferida, a alterações na matriz extracelular ou à atividade anormal de proteases.
  • Nessa situação, é preciso investigar a causa e pensar em intervenções corretivas, que vão desde novo desbridamento até terapias avançadas, como enxerto de pele.
  • Com a estratégia correta, o esperado é ver migração de queratinócitos e avanço gradual da borda, indicador de que a ferida voltou a evoluir.

Soluções antimicrobianas para o tratamento de feridas com exsudato

Agentes antimicrobianos tópicos desempenham um papel fundamental no manejo de feridas crônicas e exsudativas, assim como no cuidado de incisões cirúrgicas. 

Veja alguns produtos que podem ser utilizados e que estão disponíveis aqui na Med Supply. 

1. Solução antisséptica PHMB (Polihexanida)

A polihexametileno biguanida (PHMB) é um antisséptico em solução usado para limpeza e irrigação de feridas com infecção localizada ou risco aumentado. 

É considerada eficaz contra contra bactérias, fungos, vírus e microrganismos multirresistentes. quando utilizada de forma contínua.

Segundo estudos, ela ajuda na redução de biofilme, na melhora da dor e na cicatrização de boa parte das feridas tratadas, sobretudo naquelas com exsudato leve a moderado.

Alguns exemplos de produtos com essa composição são:

2. Curativo antimicrobiano à base de Cadexômero de Iodo: IODOSORB™ 

IODOSORB™ é um curativo antimicrobiano inteligente, desenvolvido especificamente para romper o biofilme e criar um ambiente ideal para o reparo tecidual. 

Sua tecnologia combina micropartículas de Cadexômero com 0,9% de Iodo elementar, atuando em dupla frente:

  • Destruição ativa da barreira do biofilme: alta capacidade de absorção do exsudato, desidratando e desestruturando a matriz protetora do biofilme (SPE). Favorecendo o desbridamento autolítico, ajudando a “limpar” o leito da ferida de forma controlada;
  • Eliminação contínua de bactérias (Iodo 0,9%): o iodo é liberado de forma suave, contínua e inteligente, apenas quando a partícula entra em contato com o exsudato. Com a matriz do biofilme rompida, o iodo alcança as bactérias expostas, garantindo um amplo espectro antimicrobiano e reduzindo a chance de o biofilme se restabelecer.

3. Curativos de espuma hidrocelular ALLEVYN® (com e sem prata)

ALLEVYN® é uma gama de curativos de espuma hidrocelular (sem e com prata) desenvolvida especificamente para feridas agudas e crônicas com diferentes níveis de exsudato.

ALLEVYN Gentle Border
Curativo de espuma de três camadas, sem prata, com filme superior respirável, impermeável a água e microorganismos, núcleo hidrocelular que absorve de forma vertical e camada de silicone suave. Ele controla o exsudato, reduz vazamento e mau cheiro, protege a pele perilesional e oferece alto conforto.Ideal para pele mais sensível ou áreas de difícil fixação.
ALLEVYN Ag Gentle Border 
Associa essa mesma estrutura de espuma com sulfadiazina de prata. Atua como curativo de espuma antimicrobiano para feridas com risco de infecção ou colonização crítica, ao mesmo tempo em que mantém o ambiente úmido e reduz o risco de maceração.
ALLEVYN Life
Curativo de espuma de cinco camadas, voltado para feridas com exsudato moderado a alto. Tem núcleo superabsorvente, indicador visual de troca, boa retenção de exsudato e foco em conforto e redução da frequência de trocas, contribuindo para melhor custo-efetividade e bem-estar do paciente.

4. Curativo pós-operatório: OPSITE™ Post-Op Visible 

O OPSITE™ Post-Op Visible é um curativo pós-operatório estéril, indicado para incisões cirúrgicas.

Ele combina um filme transparente impermeável a bactérias com uma espuma hidrocelular absorvente, permitindo visualizar a incisão sem retirar o curativo, o que reduz o risco de contaminação. 

Sua alta capacidade de manejo de exsudato ajuda a evitar umidade em excesso, favorece o fechamento da incisão e permite que o paciente tome banho com segurança. 

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Referências: 

CARBINATTO, F. M.; AQUINO JUNIOR, A. E.; BAGNATO, V. S. Condutas e inovações nos cuidados com feridas crônicas. São Carlos: Instituto de Física de São Carlos – USP, 2024.

SMITH & NEPHEW. OPSITE™ Post-Op Visible: curativo pós-operatório com visualização da incisão. Folheto técnico, 2016.

SMITH & NEPHEW. Biofilme e atraso na cicatrização: IODOSORB™ 0.9% Cadexomer Iodine. Folder técnico. [S.l.], 2016.

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